Café com Letras #14 - Moreno Ribeiro



As consequências de uma vaca doméstica

Comprou uma vaca.  – É linda; anunciou.
A vaca dava-nos leite mas ninguém o bebia. Talvez fosse o cheiro da bosta aliado à falta de distância entre ela e o copo. Talvez fosse somente frescura de conhecimento, em outras palavras: - “para comer carne que você mesmo matou é preciso mais estomago do que vontade”. Quaisquer que fossem as razões, o fato é que ninguém tocava no líquido matinal tão comum, e no entanto intragável.
Tentou de líquido passar para sólido; não funcionou.
De leite sobrado, decidiu-se deixar andar.
Deixou-se andar a teta, o banquinho de madeira, o leite madrugado […] e só ficou a bosta.

Mamãe mandava passear a vaca que, ao longo dos passeios, pensou ser cadela. Meu irmão, que não achava nem vai achar graça, era o que levava a pior; pois é verdade que a bosta e seu cheiro a mim só eram cheiro. Ao meu irmão, no entanto, era um perfume quase físico. Não mais que ele, levei também eu a vaca para passear e comer matos pelo caminho. Não achava graça naquilo, mas o fazia.
 - Prefiro a besta da vaca a ter o rabo ou as orelhas inchadas. Pensava eu enquanto segurava com força a “coleira” da vaca. Um passeio de vinte minutos tinha duração de uns sessenta ao lado da vaca: filha-da-mãe que parava pra experimentar cada miserável tipo de mato - É TUDO A MESMA MERDA, Ó VACA! Gritava eu. Mas ela não fazia caso, ruminava tranquilamente o mato da semana passada com pitadas do mato de hoje, como se eu não existisse.

Eu gostava de reclamar. Não ganhava nada com isso nem mesmo sentia prazer, mas quando tomava consciência do presente, já se via mamãe brava atirando colheres de pau em minha direção. Algumas eram certeiras, outras eram assassinas. Não era exclusivamente culpa minha; leite embostado e madrugado logo cedo era receita para confusão.
 Era o terceiro ou quarto dia de vaca doméstica, e mamãe não estava no seu melhor humor, mas eu estava. (Lembrem-se de que naquela altura não existia diferença, pelo menos em minha cabeça, para mau-humor; humor ou qualquer outro estado fosse ele de direita ou esquerda; era tudo igual.) Saí do quarto, atrasado para a escola (como era o costume), e o cheiro veio soprar-me o rosto com tal voracidade que o confundi com os estalos de papai e colheradas de mamãe. Emburrei não só a cara, mas os olhos, nariz, orelhas […] Subi para a mesa e logo vi – maldição – não era um sonho. Lá estava ele. Branco como a neve e encardido como a bosta.
- Saio em cinco minutos. Quem estiver no carro sorte, quem não estiver, estivesse. Disse mamãe sem virar o rosto.
- Putz, leite da vaca?! Não tem leite normal? Disse eu.
- Orra! Sacola, vocês são muitos mimados! Respondeu mamãe.
Emburrei. Ela não ligou meia.
Sentei-me para nada pois recusava-me a beber daquilo, e para comer foi-me embora a fome.
Reclamei mais um pouco: - Que droga de família! (Essa foi uma frase que ficou famosa em minha casa. Passou de geração em geração. Não sei se ainda hoje a usam. Não devem usar. O contexto não permite.)
- Vai a procura de outra então! Tá esperando oque?! Essa era a “frase-bluff” de minha mãe quando atirávamos a nossa já velhaca, e a transação verbal dava por encerrada. De uma forma ou de outra, era sempre de mamãe a última palavra. (Me lembro de ocasiões em fora capaz de agarrar a última sílaba mas mãe, que era mais esperta, antes que eu a pudesse disparar, já sumia escritório – trancado – adentro toda apressada.)
Como consequência de meu protesto culinário, acabei por ficar a pé com apenas cinco minutos para percorrer cerca de quatro quilômetros até a escola. Chegar atrasado era inevitável, mas tampouco era estúpido para ir com intenções de chegar a horas; aliás fazia esforço por andar devagar, para quem sabe chegar apenas para ouvir o sino dizendo que a manhã de aulas acabara. Nunca assim aconteceu, mas eu nunca perdi a esperança. Porém, aquele dia era um dia especial. Mãezinha nem suspeitara que já tudo estava planejado de véspera. (Se tivesse sido mais atenta poderia juntar dois e dois, afinal de contas na noite anterior tive o cuidado de preparar lanche, mochila, bicicleta, roupa… Coisa que nunca fazia.) Sorrateiro para não ser visto pelo papai que se preparava para ir de viagem, deslizei para fora da casa com a mochila preparada, apanhei a bicicleta e meti-me na estrada sem intenções de ir às aulas naquela manhã ensolarada.
 Combináramos de nos encontrar na casa do Joaquim, este acenou quando lá cheguei. Cumprimentamo-nos em “aperto-de-mão disfarçando o nervosismo” (que era mais aparente com tal esforço) e fomos ao encontro de Manuel, o terceiro. Metemo-nos os três na estrada quando já devíamos ter cinco minutos de aulas dadas. Quando chegamos ao nosso destino, duas horas mais tarde, com o cansaço a descascar o corpo, percebemos que talvez não fosse preciso ir tão longe para “enforcar” aulas.
Joaquim lançou um olhar interrogatório de expectativa, eu o enviei a Manuel que enviou de volta a mim que disparei a Joaquim, mas falhei. Finalmente fui eu a fazer a pergunta óbvia: - E agora?!  
- Agora temos de voltar depressa porque meu pai hoje busca meus irmãos na escola e se eu não estiver com eles vou apanhar. Disse Manuel, que já realizara o fato de não escolher o melhor dia para tal aventura.
Com o sol antes agradável mas que agora já incomodava, seguimos viagem de volta para mais duas horas de caminho. Joaquim, que fora naquela ocasião mais esperto, escolhera um dia que sua mãe estava fora para não ter surpresas, por isso ficou logo em casa para evitar quaisquer encontros. Seguimos eu e Manuel para o nosso destino final – a escola.

Havia duas entradas possíveis para a escola. Uma delas era muito bem estruturada e, naquelas horas, cheia de gente. A outra era uma picada de mula, vaca, cavalo, bicicleta […] Não é preciso dizer qual delas escolhemos. Picada passada, nas portas velhas da escola, pousei a bicicleta, limpei o suor da testa, endireitei a mochila nas costas e fiz de conta que nada havia acontecido para além de mais um dia de aprendizado. Enquanto caminhava em direção às salas de aula pensava comigo mesmo: - “Ainda sou capaz de apanhar o Antônio ou o João no corredor, preciso gabar-me de ter tido um dia muito melhor que o deles!” (O que não era bem verdade visto estar exausto, com medo de ser apanhado e com grandes probabilidades de o ser.) Com o pé na soleira da minha sala de aula; paralisei. Os olhos pregados no chão. Aqueles pés grandes, aqueles sapatos… Não podia ser! Chocalhando o esqueleto amedrontado deslizei os olhos pela calça conhecida, a camisa, o blazer, até chegar na barba feita do rosto de meu pai que, com pena de seu filho ter ido a pé para escola, decidiu atrasar sua viagem para o levar de carro à casa.

Não havia palavras. Fora o crime perfeito. Se ao menos não fosse o coração mole de meu pai, nada teria saído errado!
Ao fim da aventura, ganhara dias de castigo sem colheradas ou estalos. Apanhado pelo amor de meu pai, e salvo pela inocência de minha idade, afinal de contas não tivemos as quatro horas de aulas que enforcamos deitados na relva da casa de Joaquim, como poderíamos ter feito, se a magnitude do crime nos fosse a nós o que de fato era.

Ah! Já me esquecia. Cornélia, a vaca, anda bem nos dias de hoje. Comprou um sítio no Acre agreste, onde construiu uma das mais conceituadas empresas de lacticínios de curta validade. Tem três filhos, cinco filhas, vinte cavalos, duas ovelhas e algumas galinhas que insistem em cutucar os dentes dos cachorros do vizinho. O resto é lenda e o tempo cuida para que elas sejam eternas.

Texto de Moreno Ribeiro

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