Café com Letras #12 - Lucas Altmicks


Soldadinho na neve

Aconteceu na Rússia, em um tempo onde meu avô tinha onze anos. 
Dizem que, certa vez, um Soldadinho estrangeiro perdeu-se em um bosque ermo. Era tempo em que o inverno, muito carinhoso, envolvia a terra em um espesso cobertor de neve, e lhe beijava assim, noturno, a tez coberta de gelo. Por isso fazia muito frio, e os animais todos dormiam confortavelmente em suas cavernas.
Nesse tempo de silêncio e calma, o Soldadinho caminhava, suas grandes botas tentando inutilmente cravar pegadas na branca alfombra. Os sulcos, porém, apagavam-se muito rapidamente. Inimigos se borravam entre os negros paus para, à medida que o Soldadinho se aproximasse, revelarem-se apenas um truque da neblina.
Foi quando o Soldadinho avistou, ao pé de uma grande inclinação do terreno, um pacote coberto por neve. Ao menos, foi o que ele pensou ter visto, antes de perceber tratar-se de uma menina.
- Ó sol, tu que és tão forte, derrete a neve que prende o meu pezinho? – Ela implorou para o astro, que boiava inócuo, intercalado pelos galhos secos.
E o Soldadinho escorregou a inclinação do terreno como quem adentra uma trincheira. Retirou a neve que prendia o pé da menina e tornou a caminhar.
- Espere, moço!
Mas já não tinha o Soldadinho cumprido todas as suas ordens?
- É razoável que me tomes como tua responsabilidade, visto que foste tu mesmo quem me desprendeu.
E o Soldadinho notou, observador, que a menina já não podia mais caminhar; tinha os pés gelados e os joelhos fracos. Se ali a deixasse, coitada, ela teria os pés cobertos por neve novamente, de forma que o esforço do Soldadinho em salvar-lhe uma primeira vez teria sido totalmente inútil. Ele pôs-se de cócoras e tomou o pacote às costas.
- Que gentil de tua parte, Soldadinho, atender às minhas suplicias! Far-te-ia o favor, pois, de alimentar-me?
Sim, senhora. Assim, a menina tornou-se seu Fardo. O Soldadinho saiu em busca de um canto onde pudessem comer tranquilos.
Peregrinaram pelo bosque ermo sem trocar palavras. O Fardo nas costas do Soldadinho tornava suas botas pesadas, de modo que era cada vez mais difícil retirar os pés da espuma de neve, uma vez que os tivesse enterrado em seu leito. Era uma tarefa tortuosa, esse negócio de caminhar em terras feitas de nuvem.
Por outro lado, porém, tinha lá o Fardo as suas vantagens. Metade do Soldadinho estava menos sozinho, agora, com o pacote às costas. Além disso, as baforadas suaves do pacote aqueciam as suas orelhas, o que lhe era bastante agradável. A ideia de servir, da mesma forma, facilitava a jornada, pois é mais fácil alcançar algo do que procurar por nada.
Finalmente, chegaram a uma clareira de onde era possível ver o céu, o qual parecia feito de neve assim como a terra – Uma neve mais escura, porém, e mais brilhante. 
Havia um tronco que, dias antes, tombou morto com o peso da neve, e que agora serviria de abrigo para o Soldadinho e seu Fardo. Eles se sentaram juntinhos: o Fardo, o Soldadinho e o seu Rifle, embaixo do pau que parecia abraçar-lhes. O Soldadinho tirou sua ração da mochila e os dois comeram em silêncio.
- Sua comida é ruim, mas foi o suficiente para saciar-me. Muito obrigada, moço! Numa próxima ocasião tu gostarias, por acaso, de visitar a minha casa para provar dos meus biscoitos? Decerto são melhores do que tua ração rançosa.
Uma casa; ó Deus! 
Parecia-lhe tão distante... 
O Soldadinho imaginou brasa crepitando em uma lareira de pedra, e à mesa muito pão e frutas, e quem sabe alguns dos biscoitos feitos por seu Fardo. Será que estariam quentinhos? Quase pôde imaginar-se à poltrona, recostando-se, alegre, sob a iminência de um cochilo... 
Mas o que via – e com que solidão! – através de suas retinas magras, era uma imensidão repleta de ausência, apenas, e uma infinita falta de cor!
O que te aconteces, portanto, por trás de tuas retinas incipientes, criança? A voz do Soldadinho se espreguiçou pela primeira vez em muito tempo:
- O que enxergas tu?
Ó, não sabia que falavas! O Soldadinho ficou incerto. Nunca havia falado antes. O Fardo olhou para o longe, por fim, até onde o limite de seus olhos se esboçava. Um floco de neve tocou os seus cílios.
- Eu vejo um manto branco, moço, se estendendo pelo bosque. Debaixo dele eu vejo a Morte, e debaixo dela vejo a primavera, que se alimenta de seus restos.
O Soldadinho bebeu de suas palavras com prazer, como se fossem mel. Nem o seu Rífle, nem o do inimigo, tinham tanta força quanto aquelas palavras, ainda que as armas causassem Morte – e todo mundo sabe que Morte é coisa firme, – e as palavras se perdessem no ar rarefeito um segundo após terem sido ditas.
O Soldadinho levantou-se e olhou ao seu redor, na vã tentativa de encontrar o seu caminho. O Fardo o chamou em voz baixa, logo em seguida, enquanto ele ponderava se devia ou não escalar certa árvore. Ele se agachou à sua frente e ouviu as suas próximas palavras.
- Ó Soldadinho, tu que és tão gentil, podes emprestar-me teu ombro forte para que nele eu teça meus sonhos?
Que voz sofrida era aquela, como se fosse projetada sobre últimos suspiros? Por que sua cabeça pendia assim, tão cansada? O Soldadinho já havia notado antes que o Fardo estava sonolento, mas pensara que era por causa da comida, assim, como as pessoas ficam depois de se encherem muito... Foi tolo, e só então percebeu, pois era estupidamente impossível que sua pouca ração alimentasse alguém direito.
E que faria se, pelo seu toque, o Fardo entrasse em seu coração, para logo em seguida ser dele exilado?
- Injusta! – Bradou o Soldadinho. – Pedes que eu te conceda meu ombro, para logo após nele tombar! Se já és um peso incrível viva, mil vezes maior seria morta!
E logo o Soldadinho viu que o fardo o tinha nos olhos. Mas que íris extraordinária! Lembrava a cor que a grama tinha no quintal de sua terra. E agora, tão distante, o branco a cercava por todos os lados, o gélido branco da neve. De forma alguma desejava, o Soldadinho, que as pálpebras encerrassem assim, tão cruelmente, aqueles olhos!
- Tua voz lhe sai, moço, pela primeira vez, e isso é bom. Porém, ainda não escutas direito. Concede-me companhia, enquanto espero o trem que me leva, e te ensino a escutar verdadeiramente. Que tal, esta troca?
O Soldadinho sentou-se ao lado de seu Fardo e confortou seu corpo ao lado do dela. Onde estava com a cabeça, afinal? Ela era o seu Fardo, e ele a carregaria até o fim, pois é isso que fazem os Soldadinhos. Ela deitou a cabeça cansada no seu ombro e, em movimentos lânguidos, tirou as quatro luvas, as suas e as dele. Enquanto isso, o Soldadinho tentava suportar os gramas daquele rosto, que em seu ombro revelavam-se toneladas.
Depois, o Fardo tomou as mãos do Soldadinho às suas e a pôs em seu rosto rosado. 
E o Soldadinho escutou tudo.
Escutou com a palma de sua mão as batidas do coração de seu Fardo, as quais não eram mais fortes que o leve toque de um dedo em vidraça; Escutou com o dedão calejado a suavidade de seus lábios feridos, dilacerados pelo frio e pela sede cuja água não sacia; Escutou com os outros quatro dedos restantes, as outras centenas de mechas de seus cabelos ruivos, e escutou, por fim, com toda a sua mão, quando o ultimo suspiro de vida lhe escorreu pelas ventas congeladas.
Que faria com o corpo? Seria tolice carregá-lo: pesaria mais em seu coração do que em suas costas, afinal. Se ali o deixasse, por outro lado, apoiado contra o tronco gentil, seria eterno enquanto durasse o inverno, e isso era bom. Visto que neste momento não tinha, o Soldado, mais nenhuma esperança de sair vivo daquele inverno, o corpo seria eterno enquanto ele vivesse; depois disso, quando a primavera desabrochasse do que sobrou de sua morte, as formigas iriam tragar os seus restos, e tudo voltaria à sua origem, como deve findar tudo o que vive.
O Soldado deixou a Menina e seu Rifle para trás e caminhou, sozinho, por entre o vazio dos troncos congelados. Ele era assim, para quem o visse na neve, apenas um homem triste. 
Seus ouvidos, porém, escutavam toda a vida que dormia sob o tapete branco; todos os grunhidos das criaturas, todo farfalhar de plantas, e a canção que retumbava pelo planeta e ecoava em cada coração que batia, em cada roçar da seiva no tronco, e do tronco na seiva, pois tudo era audível a seus ouvidos de criatura, como deveria tudo ser à todos os ouvidos que escutam o nosso mundo!
O Soldado tombou algum tempo depois, em um lugar qualquer do ermo bosque; Ele ainda pode ver o alvorecer antes de tornar-se frio como a neve.

Texto e imagem de Lucas Altmicks